sábado, 17 de janeiro de 2009

Os cegos do Reino de Deus

"Caminhando, viu Jesus um cego de nascença."

 Ninguém vê o Supremo Mistério com as faculdades dos sentidos. A veneração, aliás, de qualquer forma do Divino é proibida desde que o Altíssimo se revelou como Um, porque Ele não tem nome, não tem forma, não tem limitações nem é apreensível na sua plenitude por qualquer categoria mental. Colocar nome, forma e qualquer outro atributo que traga o Criador ao plano das criaturas, para poder contê-lo com os sentidos e a razão é pura idolatria e apenas cega o espírito para a verdadeira visão do Eterno.

 Deus não existe. Sim, prezado leitor, afirmando isso não me coloco como ateu ou renuncio ao meu monoteísmo mais arraigado. Trata-se apenas de uma distinção antiga que os escolásticos cristãos já faziam a muito tempo e que nada tem de novo, mas cuja semente encontra-se na proibição radical de se efetuar qualquer representação mental do Criador, seja de forma, seja de categoria: Deus não “existe”, porque existir é uma categoria dos entes, e não do Ser, porque tudo e todos que “existem” estão imersos nEle, como já se afirmou: “Porque nEle nós vivemos, e nos movemos, e existimos.”. O Criador não pode estar contido porque a tudo e a todos contém, ele não “existe” em algo maior, Ele É: “Eu Sou”. Não existe nada infinito a não ser o Infinito Pessoal. Nem o cosmos, nem o vazio, nem o tempo nem os seres, nada existe para fora ou para além do Altíssimo, tudo vem dEle e volta para Ele, e essa Realidade para além de qualquer descrição somente pode ser contemplada pela intuição direta, pela intelecção pura, no dizer dos escolásticos, ou com o coração, na expressão do autor anônimo de “a nuvem do desconhecido”, o famoso livro medieval que trata da vida contemplativa. Nossas palavras se tornam ridículos murmúrios para expressar qualquer realidade dEle.

 Em todos os tempos há os cegos no Reino e os que vêem. Como sempre, a ordem de valores do Reino de Deus é sempre inversa à da sociedade humana, no Reino de Deus os cegos vêem e os que vêem ficam cegos, “para a glória de Deus.”

 Há quem confunda a criatura com o Criador, numa espécie sutil de idolatria. São os que tudo vêem no Reino com os olhos da carne, e sua principal característica é o apego à letra, colocando formas e categorias nAquele que não tem forma e não pode ser apreendido pela razão humana. Presunçosos, olham para os demais como cegos, ignorantes acerca da tradição herdada dos antepassados, seja Moisés, Thomás de Aquino ou João Calvino. E, claro, por sobre estas tendem a construir as suas próprias notas de rodapé, acumuladas por anos e séculos, umas sobre as outras, venerando o bezerro de ouro, ornando-o com flores e mantendo-o iluminado com velas e honrado com as mais dignas oferendas.

 Ser cego no Reino de Deus tem suas vantagens. Aqueles que vêem, ou que, presunçosamente, acreditam que vêem, permanecem cegos. Mas os que se descobrem cegos tem a oportunidade de clamar sempre: "filho de Davi, tem misericórdia de mim!". Não se trata de escolha pessoal, mas de dom divino: “O homem não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do céu”.

 Outro dia ocorreu-me à lembrança aquela preciosa narrativa em que Moisés encontra-se com Deus no topo do monte e ouve palavras que, em nós, são rapidamente filtradas em um sem número de preconceitos e idéias inconscientemente acumuladas que abrandam a brutal dureza do que realmente significa a misteriosa mensagem da Voz do deserto: "quem deu a boca ao homem, quem o faz mudo ou surdo, o faz ver ou cego? Não sou Eu, o Senhor?"

 Deus fez os cegos em seu Reino para que neles "se manifestasse a glória de Deus". Não se trata de nenhuma questão dogmática, confessional, técnico-teológica ou qualquer desses marcadores genéticos que utilizamos para fazer distinção entre as raças de "judeus" e "samaritanos". Se fosse esse o caso, Nicodemos teria tirado de letra, pois era "doutor em Israel."

 Trata-se de poder enxergar o que está além das palavras e da racionalidade hoje eleita ídolo e co-mediador entre Deus e a maioria das igrejas protestantes históricas, típicas do cego que presume tudo ver. Desaprendemos o que já sabíamos: "a letra mata", "a lei nos serviu de aio".

 A luz não está franqueada a todos, mas em cada geração, apenas àqueles a quem o Pai aprouver enxergar o seu Reino: "Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair, e eu hei de ressuscitá-lo no último dia." Enquanto a nossa salvação for puramente confessional, post mortem e racionalmente fundamentada, continuamos cegos e não conhecemos a luz divina que é Deus manifesto em Cristo. "Eu e o Pai somos um": essa é a vida eterna.

 

Pondo os pés em Deus

Em seu livro “tirando os sapatos”, o rabino Bonder nem por um minuto pensou, creio, na possibilidade de um uso tão pouco cerimonioso do ato, a saber, arremesso do mesmo em uma figura simbólica de poder e autoridade, como no caso do Presidente dos Estados Unidos da América. Encarnando a ordem político-econômica dominante, o “establishment” de uma era, estadista já no inverno de sua administração cuja maior proeza foi alargar tremendamente o fosso entre amigos e inimigos do Império, passou pelo papel ridículo de ter que se esquivar, não uma, mas duas vezes, das “sapatadas” de um jornalista iraquiano que, conta-se, não tardou em receber a punição física do serviço secreto norte-americano e, dizem também as más línguas, o prêmio prometido (em dólares norte-americanos, é claro) por algum Sheik árabe ansioso em humilhar o desafeto poderoso.

 

 O campeonato de “arremesso de sapatos”, graças à mídia multifacetada do Séc. XXI ficou “pop” em todo o mundo, especialmente no Oriente Islâmico, de modo que a fábrica do sapato mais famoso do mundo não mais está conseguindo dar conta de tanta demanda. Categorias tipicamente ocidentais – o modo de produção capitalista e o fenômeno midiático – que os adeptos desta nova modalidade olímpica teimam em não enxergar, mas pelas quais vivem, se movem e existem. Sem perceber, já perderam o jogo para o adversário tão somente por jogarem conforme as regras daquele.

 

A mensagem dos pés descalços é antiga demais para ser reeditada por algum jornalista de ocasião ou fenômeno “pop”. A saga dos “sapatos voadores” nem de longe se parece com o mistério que nos comunica a narrativa da sarça ardente. Parece antes uma paródia, um anti-clímax, uma piada de mau gosto que tem em comum apenas o utensílio dos pés e a proximidade territorial.

 

O pé tem que tocar o solo, sentir-se conectado à vastidão da existência, comparado à pequenez do seu ego; deixar os seus sapatos, o pequeno mundo que compreende e domina, para se deixar absorver pela metáfora do infinito, como um grão de areia no portentoso cosmos misteriosa e divinamente regido. A realidade não é macia, nem amistosa, nem confortável. Ela é o que é, porque Ele É o que É: “Eu Sou o que Sou”. Porque andar com os pés descalços é andar em terra santa. “Porque nEle nos vivemos, e nos movemos, e existimos.”