"Caminhando, viu Jesus um cego de nascença."
sábado, 17 de janeiro de 2009
Os cegos do Reino de Deus
Pondo os pés em Deus
Em seu livro “tirando os sapatos”, o rabino Bonder nem por um minuto pensou, creio, na possibilidade de um uso tão pouco cerimonioso do ato, a saber, arremesso do mesmo em uma figura simbólica de poder e autoridade, como no caso do Presidente dos Estados Unidos da América. Encarnando a ordem político-econômica dominante, o “establishment” de uma era, estadista já no inverno de sua administração cuja maior proeza foi alargar tremendamente o fosso entre amigos e inimigos do Império, passou pelo papel ridículo de ter que se esquivar, não uma, mas duas vezes, das “sapatadas” de um jornalista iraquiano que, conta-se, não tardou em receber a punição física do serviço secreto norte-americano e, dizem também as más línguas, o prêmio prometido (em dólares norte-americanos, é claro) por algum Sheik árabe ansioso em humilhar o desafeto poderoso.
O campeonato de “arremesso de sapatos”, graças à mídia multifacetada do Séc. XXI ficou “pop” em todo o mundo, especialmente no Oriente Islâmico, de modo que a fábrica do sapato mais famoso do mundo não mais está conseguindo dar conta de tanta demanda. Categorias tipicamente ocidentais – o modo de produção capitalista e o fenômeno midiático – que os adeptos desta nova modalidade olímpica teimam em não enxergar, mas pelas quais vivem, se movem e existem. Sem perceber, já perderam o jogo para o adversário tão somente por jogarem conforme as regras daquele.
A mensagem dos pés descalços é antiga demais para ser reeditada por algum jornalista de ocasião ou fenômeno “pop”. A saga dos “sapatos voadores” nem de longe se parece com o mistério que nos comunica a narrativa da sarça ardente. Parece antes uma paródia, um anti-clímax, uma piada de mau gosto que tem em comum apenas o utensílio dos pés e a proximidade territorial.
O pé tem que tocar o solo, sentir-se conectado à vastidão da existência, comparado à pequenez do seu ego; deixar os seus sapatos, o pequeno mundo que compreende e domina, para se deixar absorver pela metáfora do infinito, como um grão de areia no portentoso cosmos misteriosa e divinamente regido. A realidade não é macia, nem amistosa, nem confortável. Ela é o que é, porque Ele É o que É: “Eu Sou o que Sou”. Porque andar com os pés descalços é andar em terra santa. “Porque nEle nos vivemos, e nos movemos, e existimos.”
